Simples

Simples

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Quem é simples necessariamente precisou dominar o ofício em que trabalha. Apoderou-se do clássico, transitou por tendências e modismos, até construir sua própria arte. O que é simples não é fácil. Singular é o que é; excepcional, nome próprio, não admite plural. É único, incomparável, sem igual.

Faz tudo pelo ímpeto de dar expansão à sua alma e, sem querer querendo, faz nascer o novo, o original, o genial. Quando percebe que deixou de ser considerado um louco para ser admirado, se surpreende como uma criança. Se lhe entendem, confirma: isso, isso, isso. Se não lhe compreendem, recolhe-se a seu barril.

A simplicidade não é conhecida pelos arrogantes e egocêntricos. Tudo que é singelo, do topo à raiz, produz grandes feitos; são astúcias, com as quais ninguém contava. Reconhece que chorar é tão natural como uma necessidade fisiológica. A onomatopeia é a mesma de quem se dirige ao banheiro e faz seu pi-pi-pi-pi-pi, sem se acanhar com isso.

A perfeição é um peso aos ombros da pessoa simples. Portanto, prefere administrar suas imperfeições, tratando-as da forma que melhor conhece: o modo mais simples que há. Então, as expõe publicamente, fazendo com que achem graça do que para os mais pomposos seria a maior das desgraças.

A vida é simples assim. O que parece ser a morte é simples invisibilidade. Efeito das pílulas de nanicolina.

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Jurista, articulista e cronista jurídico. Pensador nas horas vagas.

11 comentários

  1. D. Menezes, quanta visão há em seu texto que concatena suavemente as palavras “Chaves”. Exercício que deveríamos fazer todo dia: conectar-se com a essência, sem ornamentação, sem poeira. Para isso é preciso ser. Simplesmente ser. Obrigada, amigo!

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  2. Agora chegou a minha vez. Mandei o link desse artigo para o Desembargador José Renato Nalini, Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, que também mantém um blog e autorizou que seus posts pessoais fossem registrados aqui na CAWdialogos. Eis a resposta dele: “Assinaria com gosto.” Nalini.

    Agora, como me falta competência para enxergar e conseguir exprimir algo justo e digno sobre tudo o que li, sobretudo diante da cegueira que a luz divida desse artigo acabou me vitimando, apenas vou usar de alguns poetas como ajudantes. “Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou quando menos, seus companheiros de espírito?” Fernando Pessoa. – “Não há bons, nem maus destinos. O homem é o responsável, o agente, o motor arbitrário das suas ações, das quais advém o sossego ou a inquietação, a dita ou a destida, a pública estima ou a deprezadora abominação.” Camilo Castelo Branco. É isso aí.

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      • Você é o nosso colunista mais louco e mais lúcido ao mesmo tempo. Dizem que nesse mundo em que vivemos, mais vale a loucura a lucidez. Então aí vai, em sua homenagem, um outro “esquisito”, louco, maluco, lunático, como você preferir denominar, mas tão gênio e brilhante como você.
        “Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter, uns para os outros, uma amabilidade de viagem.” Fernando Pessoa.

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        • Irmão Márcio, somos integrantes da mesma congregação de pensamentos, que se reúne apenas em sonho, se encontra mais mental que fisicamente e exercita a escrita com o que mais lhe consome a atenção: o filosofi-juridi-histori-religio-poli-socio-economi-besteirol. Rsrsrsrs
          Recebi seu convite para participar da congregação e lhe sou eternamente grato, irmão Márcio, por me mostrar o caminho do desenvolvimento da feira livre de ideias, onde há espaço para verdura, legume, peixe fresco, bugiganga, forró, suor e por aí vai.
          Ainda estou aprendendo a montar a barraca da feira, mas um dia hei de chegar a seu estágio de evolução, meu caro irmão!

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  3. Nada, meu amigo. Sou apenas um grande e dedicado discípulo das suas genialidades. Meu processo de evolução e lento e precário. Mas vou chegar lá um dia.

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  4. Talvez a simplicidade esteja relacionada ao nível de paixão com que se faz o que é proposto.

    O que é feito com prazer é sempre mais fácil.

    Talvez.

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    • Grande André!
      Tudo pelo que nos apaixonamos nos rende momentos de prazer; isso é uma verdade! Mas acredito que paixão e prazer sejam tão efêmeros quanto a combustão de um pedaço de papel.
      A paixão parece nos motivar de uma maneira sobre-humana, aciona a glândula adrenal, acelera o metabolismo. Mas se extingue como a vida curta de um besouro.
      A simplicidade, por sua vez, é uma conquista a longínquo prazo e quem pode saboreá-la percebe traços amargos no paladar que experimenta. Quero dizer, muitas vezes pouco há de prazeroso ou apaixonado na busca por aquilo em que se acredita. Há uma certeza inabalável no que deva ser feito. Cria-se uma espécie de fantasia que nos aproxima da loucura, mas o ideal permanece são, intacto, invencível. Apenas quando atingido se terá o triunfo sobre os severos instantes de pesar.
      Não há facilidade; há sim uma capacidade de persistência quase obstinada.
      Pablo Picasso confidenciou, certa vez: “quando eu tinha 15 anos sabia desenhar como Rafael [Sanzio, mestre renascentista], mas precisei uma vida inteira para aprender a desenhar como as crianças”.
      Forte abraço, André!

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