O Sétimo Sentido

O Sétimo Sentido

No mais das vezes nossas escolhas se sujeitam a fatores externos. Somos sensoriais demais. Quem estiver a me ler, acionará a visão. No ambiente que estiver, quem dele falar, à distância que for, terá provocado sua audição. O cheiro que se exalar, gostoso ou horroroso, incitará o olfato de quem tem bom faro. Se tiver comida no ar, a própria imaginação tocará no paladar. Se ainda um inseto lhe picar ou se o celular vibrar, novas sensações vão espocar.

Quando perguntado sobre o bem e o mal, um sábio pediu licença ao entrevistador e após dias retornou com a resposta em forma de interrogação:

O que você perguntou mesmo?

Havia sapiência e nada de indiferença na contrapergunta. A distinção entre o bem e o mal não é imediata e sua explicação não é pública. Exigem recolhimento, meditação, nudismo conceitual, limpeza da alma. O produto dessa introspecção interessa apenas ao iogue em formação.

Há quem afirme que a mercê divina nos proporcionou um sexto sentido. Para uns paranormalidade, para outros mediunidade. Uma captação do que nos circunda por um dispositivo mental capaz de travar comunicação com seres orgânicos e inorgânicos, e mesmo com seres etéreos, espirituais. Mais uma oportunidade de ouvir conselhos, tanto bons quanto ruins. Os espíritos são as almas dos que já pisaram nesse solo. Compõem o universo dos fatores externos, com suas benesses e ciladas.

De um sétimo sentido, poucos falam. Dos que falam, poucos se interessam. Dos que se interessam, poucos valorizam. Dos que valorizam, bem poucos utilizam. É a consciência. O verdadeiro repositório do bem e do mal. A noz que para ser aberta pede equilíbrio e discernimento. A fraqueza a mantém segregada. A força lhe fará esmagada. O sábio recorreu ao sétimo sentido.

Vós, que tanto vos dedicais ao direito, que traçais linhas divisórias entre justo e injusto, legal e ilegal, boa-fé e dolo, de quais critérios vos servis? De que sentidos viscerais sois useiros e vezeiros? De que moral podereis falar se não conheceis a vossa? Há muita filosofia e religiosidade no direito. Sejais mais meditativos e menos científicos. Não proponho a contemplação de ninfas ou virgens do além, nem o uso de turbante por um hierofante. Apenas sugiro que consulteis a bússola da consciência no deserto de pudor que vemos, ouvimos, nos engolfamos e nos cobrimos.

Share on Google+Tweet about this on TwitterShare on FacebookDigg thisEmail this to someoneShare on TumblrPin on Pinterest
Filósofo e Articulista. Auto didata em Ciências Sociais e Políticas. Estudioso do comportamento humano. Trabalha como ghostwriter.

9 comentários

  1. A essência das coisas não está na filosofia, nem na política, nem em qualquer função intelectual. Está na reciprocidade do inconsciente que não encadeia só o que é humano, mas até o que é apenas vegetal ou inerte.

    (0)
  2. Agustina, perfeito. Gosto dessa aleatoriedade. Ela é rica. Tudo o que acontece em nosso entorno é rico e passa, em geral, despercebido. Um pecado. Muita coisa deixamos passar. Muitas oportunidades vão embora. Não estamos atentos. Mania de reduzir o rol das coisas importantes na nossa vida. Quem somos nós?

    (0)
  3. Há tanta consciência no que deixamos passar despercebido. Parece-me sabermos que não aguentaríamos tudo o que sentiríamos se percebêssemos tudo que se passa ao nosso redor.

    (0)
    • Esta aí uma grande verdade, Andressa. Suponho também que nossa consciência se dilate a cada dia, à medida que nossa capacidade de suportação se expanda.

      (0)

Deixar um resposta