A fábula das abelhas

A fábula das abelhas

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Nossos dias se prestam à releitura de clássicos que, mesmo escritos há séculos, guardam pertinência com a situação brasileira. Foi em 1714 que o médico holandês Bernard de Mandeville escreveu sua “A fábula das abelhas, ou vícios privados, benefícios públicos”. É a metáfora à Inglaterra da época.

O escritor enxergou uma contradição no Reino Unido. O Império “onde o sol nunca se punha”, a nação hegemônica em economia e poderio naval, era pátria de um povo insatisfeito. Havia uma cobrança pela ética, pela solidariedade, pela fraternidade esgarçada.

Comparou a Inglaterra a uma colmeia bem sucedida. Pujante, próspera e bem governada. Invejada e copiada por outras colmeias. Não faltavam empregos, mas as abelhas não estavam contentes.

Embora boa parte delas fosse egoísta, corrupta e aproveitadora, todas elas eram míopes. Não conseguiam enxergar que o esplendor econômico da colmeia resultava de seus vícios e taras.

Clamavam por uma sociedade liberta de vícios. Tanto insistiam que Júpiter acaba por perder a paciência e as atende. Expulsa a má-fé, a hipocrisia e toda sorte de vícios de suas vidas.

A consequência inicial é um sentimento compartilhado de vergonha. Qual Eva e Adão surpreendidos a desobedecer ao Criador, cada abelha reconheceu o seu passado condenável. Sabia de seus erros e defeitos. A conversão resultou em uma verdadeira revolução.

Devedores pagaram suas dívidas, ofensores pediram perdão, ladrões devolveram o produto do furto ou roubo. Então esvaziam-se os tribunais. Sem clientela, a advocacia desaparece. A inveja, a cobiça, a traição e a maledicência somem. Já não são necessárias as terapias e seus profissionais ficam desempregados.

Sem corrupção, a política se reduz a quase nada. O consumo é desestimulado. A iniciativa privada se ressente. Há uma depressão generalizada: queda sem precedentes na economia e pasmaceira existencial.

Moral da história: é impossível usufruir do conforto do capitalismo e preservar inocência e pureza.

Riqueza e virtude seriam incompatíveis? Como é que Mandeville aplicaria a fábula a um país onde a riqueza do povo minguou e os maus exemplos continuaram a florescer?

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 24/05/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: [email protected].

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Sou Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo. Docente universitário. Membro da Academia Paulista de Letras. Autor, entre outros, de Ética da Magistratura (2ª ed.), A Rebelião da Toga (2ª ed.) e Ética Ambiental (2ª ed.).

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